✞17 de Setembro de 2014. Maria José dos Santos. Essa data e esse nome vão ficar marcados. Ela se foi deixando um rombo enorme no nosso íntimo, um vácuo que nada preenche. E agora? Como comemorar o Natal sem ela? Minha vó era o pilar dessa grande família. Venceu um câncer de útero na raça anos atrás. Sofreu! Ficou curada... Porém, ele voltou. Depois de tantos anos voltou em outra parte do seu corpo, maltratou e a levou da gente. Não haverá uma "Maria" como aquela. Que num leito de hospital teve forças para rir de uma situação engraçada que ocorreu, que falou do amor de Deus para outras que estavam ali acamadas, que até quando esteve ainda consciente exaltou com fervor o nome de Deus, confiante na sua misericórdia, crendo que tudo aquilo não era um "adeus". Era o descanso merecido, justo, de uma mulher que sofreu pra criar tantos filhos, educá-los, que mesmo sendo analfabeta nos ensinou muito mais do que aprenderíamos com qualquer outra pessoa.
Eu costumava visitá-la aos sábados... Sempre a encontrava no quintal, catando as folhas do chão. Me abraçava forte, me beijava, e assim passávamos toda a tarde, eu a ouvindo, rindo de suas histórias, atenta aos seus ditados, conselhos... Como voltar aquela casa sem ela pra me receber? Tudo estará no seu devido lugar: suas plantinhas, sua linda roseira, seus objetos, suas roupas. Ela tinha cabelos tão lindos, grossos, ondulados. Dizem que ela era linda quando nova. Casou tão cedo...
Sábado passado, fui visitá-la mais uma vez no hospital. Algo me dizia que era a última vez. Já não estava falando, mas balançava a cabeça com sim ou não quando eu perguntava se estava sentindo dor. O meu maior receio era que ela não me reconhecesse... E quando eu perguntei: "Tá me reconhecendo, vó?" e ela respondeu com muita dificuldade que "sim", me deu um alívio tão grande! Então eu disse que a amava... Coisa que ela já sabia, mas eu tinha que dizer de novo. E disse. E ao sair da enfermaria, me encostei na parede e chorei. O coração tava apertado e o nó na garganta era grande. Nem sempre eu conseguia me segurar nas visitas que fazia... uma vez eu não aguentei, dei as costas pra não me ver chorando, mas me viu e eu ouvi quando disse: "Chore não, minha filha." Como alguém com câncer em fase terminal tem força para consolar os seus? Eu não teria suportado metade do que ela aguentou. Forte igual a ela eu nunca vi... Tem uma música do Milton Nascimento que desde a primeira vez que ouvi sempre me lembrava dela, não foi inspirada nela, mas descreve a minha "Maria" de forma emocionante, linda.
Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta…
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rir
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta…
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida….
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida…
Nenhum comentário:
Postar um comentário